quarta-feira, 9 de junho de 2010

Do Dever ao Dever de Prazer - Pierre Boudieu

(Transcrição comentada de 'A Distinção', p. 343)

"Vê-se como as predisposições herdadas predispõe para ocupar as posições indicadas por elas. Com os negociantes das necessidades, vendedores de bens e serviços simbólicos que se vendem para si mesmos, enquanto modelos e garantias do valor de seus produtos, que representam tão bem simplesmente porque apresentam bem e acreditam no valor do que apresentam e representam, a autoridade simbólica do vendedor íntegro e confiável assume a forma de uma imposição, ao mesmo tempo, mais violenta e mais dócil, uma vez que o vendedor só engana o cliente na medida em que ele se engana e acredita sinceramente no valor do que vende."
(É POSSÍVEL RECONHECER UMA ESPÉCIE DE SUJEITO CONSCIENTE NO ATO DO VENDEDOR SE ENGANAR. A PRINCÍPIO BOURDIEU NÃO CONSIDERA O VENDEDOR TAMBÉM UM COMPRADOR ENGANADO A PRIORI POR OUTRO VENDEDOR, QUE NÃO NECESSARIAMENTE É UMA FIGURA ESPECÍFICA, MAS VÁRIAS OU MESMO TUDO O QUE SE APRESENTA A SEUS OLHOS. VEJAMOS MAIS ADIANTE).

"Tendo se tornado a clientela privilegiada da indústria do símile - hábil a fazer promessas mirabolantes e a nomear as coisas para aqueles que, por serem incapazes de comprá-las, aceitam contentar-se com conversa fiada - a nova pequena burguesia está predisposta a colaborar com a última convicção na imposição do estilo de vida proposto pela nova burguesia, conclusão provável de sua trajetória e objetivo real de suas aspirações. Em resumo, a pequena burguesia de consumidores que entende se apropriar a crédito - ou seja, antes da hora, antes de sua hora - dos atributos constitutivos do estilo de vida legítimo, por exemplo "residências" com nomes à maneira antiga e quarto-salas em Merlin-Plage, automóveis de falso luxo e falsas férias de luxo, possui todas as credenciais para desempenhar o papel de correria de transmissão e para introduzir, na corrida do consumo e da concorrência, aqueles de quem pretendem distinguir-se, a qualquer preço, e dos quais se distingue, entre outras cosias, pelo fato de que se sente legitimada a ensinar-lhes o estilo de vida legítimo por uma ação simbólica, sujo efeito não consiste apenas em produzir a necessidade de seu próprio produto, portanto, no termo do processo, em se legitimar e legitimar aqueles que o exercem, mas também em legitimar a arte de viver proposta como modelo, ou seja, a da classe dominante ou, mais exatamente, das frações que constituem a vanguarda ética."
(PODE-SE COMPREENDER O MOVIMENTO DA NOVA BURGUESIA EM EXPANDIR SEU MODELO DE VIDA PARA A NOVA PEQUENA BURGUESIA, UMA VEZ QUE O PRÓPRIO 'EXPANDIR' JÁ É UM PROCESSO DE SE COLOCAR NUM LUGAR DIFERENCIADO, NUMA ESPÉCIE DE VANTAGEM DE DISTINÇÃO. EMBORA COM SUAS GUARDADAS EXPRESSÕES HISTÓRICAS E FENOMÊNICAS, A CLASSE EM BOURDIEU AINDA É UM DADO CONSIDERADO FUNDAMENTAL ANALITICAMENTE. A CLASSE BURGUESA É QUEM DESEMPENHA UM PAPEL DE LEGITIMADORA, MAIS DO QUE VENDER UM PRODUTO ESPECIFICAMENTE, DE MANEIRA SIMBÓLICA ELA VENDE A VANGUARDA ÉTICA, O SÍMBOLO DA POSTURA.)

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