Hermeto Pascoal
Estou aqui estudando/sentindo, sentiestudando, Hermeto Pascoal.
Por sua genialidade e liberdade de espírito desde a infância, conservadas no espírito de sua música. Quando penso nos discos que conheço e nas extrapolações que Hermeto faz no palco, na interação fundamental com a platéia, e que parece um pouco uma busca por retorno. Acho que shows em teatro fazem muito isso com o artista. Coloca o público numa posição de espectador, passivo, e acaba por despertar uma grande necessidade de resposta no músico, no ator... Isso é bem óbvio. Mas tem aí uma coisa importante, pra repensar a música na rua, a música de rua. Embora Hermeto talvez não tenha sido um músico popular, popularizado, por vezes é possível ouvir em suas composições as influências de um som total do Brasil e, não quero ser nacionalista, um som geral, de tudo e do todo. Seu som, fruto de suas andanças, de seu bom ouvido para outros músicos e para transmutar tudo o que ouvia em coisas novas. A alma de um músico, elementar.
Se isso é chegar na essência da música, em sua origem, ou se é preocupação com a estética acima de uma busca pela arte, não sei. Alguém pode até contestar, mas para mim é estar no átimo, no silêncio avesso, isso é. Hermeto.
Stravinsky retoma o elementar através de temas da "Rússia pagã" para desmitificar o presente reificado. O retorno à origem é, no portanto, um retorno paródico, que busca criticar o fetichizado no moderno, o esgotamento da música tonal.
ResponderExcluirEle usa ruínas de mercadorias (belas e fáceis melodias) para as negar, daí a paródia. E isso que complica a audição de suas obras, pois elas soam de mais fácil digestão (tonais) do que Schoenberg, por exemplo.
Pouco conheço de Hermeto, mas ele parece querer por último propor uma estética x ou y. Ele quer explorar os limites do instrumental, em cada um dos instrumentos. Sua aproximação com os temas tradicionais brasileiros parece ser porque Hermeto os vivencia, entende, gosta e enxerga nesse tal "elementar" uma "expressividade espontânea" (levando em conta que o "folclore" é em grande medida feito de cantos de trabalho, o espontâneo fica um pouco problemático).
Stravinsky e Hermeto parecem ter algo em comum, mas o que cada um pretende talvez seja diferente.
Sei lá...bom mesmo era ouvir o que o Hermeto tem a dizer sobre isso...de resto divagações!
Sim Artur, agora entendo mais o começo da nossa conversa sobre o retorno à origem na música. Talvez ele não seja de fato um retorno, porque 'o retorno' também pode ser interpretado como fetiche do passado, do arcaico. Mas um retorno que leve em conta a própria crítica do moderno. Essa coisa de retorno tem lá seus limites, porque pode pressupor uma essência, e isso pra mim é complicado de entender.
ResponderExcluirGostei da idéia de um retorno paródico, que articula a linguagem de modo a remeter sobre a reflexão de 'impossibilidade de retorno e essência', e se propõe crítica, criticando o moderno. Sobretudo pelo diálogo (literal) com a mercadoria obsoleta, como faz o Hermeto.
Mas isso também tem lá suas questões, porque há uma apropriação positiva por parte do mercado, que também tem, da parte do público, uma apropriação bem fetichizada, fetiche de cultura, de autenticidade... depois vc conversa sobre isso com o Safatle.... bzsz